3 de abril de 2011

The Strokes - Angles [2011]


O rock muda. Estilos surgem, dominam a cena e depois se extinguem para então renascerem sob novo nome e nova roupagem. Bandas se erguem e caem a todo instante. O rock definha e se regenera, mas nunca deixa de existir. Nem deixará. Ele simplesmente muda.

O Strokes também muda. Prova disso é que, dez anos depois do excepcional Is This It (2001), os novaiorquinos aparecem com um disco cheio de auto-referências e ainda assim, completamente diferente do debut. Angles é o sucessor de First Impressions of Earth, álbum de 2006 que não foi exatamente uma unanimidade de crítica e teve sua concepção num momento conturbado, marcado por intrigas e confrontos de egos dentro da banda. Fato que acabou afastando os Strokes dos palcos e (mais ainda) dos estúdios por um bom tempo.

Desta vez, a própria banda decidiu tomar as rédias do processo de gravação, descartando o trabalho do renomado produtor Joe Chicarelli, inicialmente responsável pela produção do disco. Os garotos se reuniram no estúdio do guitarrista Albert Hammond Jr. e criaram juntos as faixas que integram a tracklist de Angles.

De acordo com comentários dos próprios músicos, esse método de composição mais democrático é o que define Angles: um reflexo da diversidade musical dos integrantes e seus projetos individuais. A premissa é bonita, mas na prática a mistura leva alguma coisa de Nick Valensi e Albert Hammond Jr., pouco do Little Joy (projeto do batera Fabrizio Moretti em parceria com Rodrigo Amarante), ainda menos do Nickel Eye (ótimo projeto do baixista Nikolai Fraiture), mas muito de Phrazes For The Young, o álbum solo de Julian Casablancas, que ainda mantém o posto de principal criador do grupo.

A mão pesada do vocalista na concepção das músicas deixou o disco carregado de sintetizadores e com um climão retrô, fruto de sua fixação pelo new wave e pelo synth-pop dos anos 70 e 80. O que já dá pra sentir na faixa de abertura, a agradável e swingada Machu Picchu -- ousada ao ponto de até flertar com o reggae. E essa é só uma mostra do leque de estilos inesperados que se misturam no disco.

Logo em seguida, Under Cover of Darkness resgata um pouco do Strokes original (aquele de 2001), com guitarras vigorosas, um punhado de riffs espertos, vocal esganiçado e um solo lindo de Nick Valensi. Essas características são tão bem dosadas que já lhe garantem um lugar entre os maiores hits da banda.

Na sequência, somos mergulhados no power-pop oitentista de Two Kinds of Happiness e, pouco a pouco, conquistados pelo baixo marcado de Fraiture e pela precisão mecânica de Moretti na bateria, ditando o tempo enquanto as guitarras tecem desenhos deslumbrantes sob o vocal manhoso de Julian, cantando algo quase indecifrável.

You're So Right e Games mantêm o pé no new wave. Mas a primeira, apesar da bateria eletrônica, tem uma levada punk interessante (principalmente ao vivo); a harmonia e o ritmo acelerado das guitarras, do baixo e dos vocais -- repetindo versos fáceis como "I don't want to fight, don't wanna make you and me" e "I don't wanna argue if you want" --, fazem desta uma das mais divertidas do disco. Já a segunda se entrega de cara lavada ao synth-pop de Phrazes For The Young, num estilo tão distante do que se espera dos Strokes que pode acabar não agradando muito fã por aí.

Em Gratisfaction, Julian destila mais uma vez o seu vocal chapado e descompassado à la Lou Reed, mas também surpreende com o refrão cantado em coro -- pelo que eu lembre, algo inédito no repertório do grupo. É uma canção leve e entupida de groove, daquelas que grudam fácil. Já Metabolism é mais carregada, densa, e tem uns riffs sinistros que até lembram um pouco Vision of Division e You Talk Way Too Much. Não chega a ser uma das melhores, porém está longe de ser ruim.


Outra que não acrescenta muito ao conjunto da obra é Call Me Back. A faixa foi assumidamente incluída no álbum só pra constar uma musiquinha lenta. Ainda assim, o belo dedilhado e o clima psicodélico fazem a canção valer à pena.

Mas toda a expertise musical do grupo parece estar concentrada em Taken For a Fool, um petardo roqueiro que agrega todos os elementos que fizeram do Strokes uma das bandas mais legais do século. É aqui onde o conjunto realmente funciona, e a união de letra, melodia, técnica e atitude beiram a perfeição. Destaque para as guitarras de "16bits" e, mais uma vez, o baixo durão de Nikolai "The Bulldog" Fraiture.

A faixa final de Angles é que melhor traduz o espírito de renovação que envolve o grupo no momento. Life Is Simple In The Moonlight começa como bossa nova, compassada, cantada de mansinho, e no refrão ganha corpo e cara de Strokes. Coisa fina mesmo. E eu poderia ainda dedicar um parágrafo inteiro ao belo solo de Valensi na música, mas vou resumi tudo em uma única palavra: poesiaemseiscordas.

Com efeito, Angles trás novo fôlego à carreira dos Strokes e representa uma fase de ampliação de horizontes que promete ser bastante produtiva. Pode não ser outra unanimidade de crítica, mas não adianta reclamar...esse é o Strokes que vamos ter daqui pra frente. E sinceramente eu curti!

Vídeos:
- Under Cover of Darkness:


- Ao vivo no Letterman, detonando com Taken For a Fool:


- Call Me Back:



Angles [2011]
Nota: 8.7
Origem: Nova York, EUA
Estilos: Alternative, Indie Rock, New Wave, Post-Punk
Gravadora: RCA
Duração: 34m13s
Artistas Similares: Albert Hammond Jr., Bombay Bicycle Club, Julian Casablancas, Little Joy, Tokyo Police Club
Myspace / Website

Faixas:
01. Machu Picchu

02. Under Cover of Darkness

03. Two Kinds of Happiness

04. You’re So Right

05. Taken For A Fool

06. Games

07. Call Me Back

08. Gratisfaction 

09. Metabolism
10. Life Is Simple In The Moonlight

5 comentários:

  1. O tal Angles:
    http://ow.ly/4s8RF

    ResponderExcluir
  2. obrigado pelo link, esse link ta meio dificil de encontrar devido a grande quantidade de link falsos e excluidos... valew

    ResponderExcluir
  3. Valeu Tiagão. Ótimo post!

    ResponderExcluir